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domingo, 29 de junho de 2008

Duas cartas sobre a dama Ruth Cardoso!



Ruth



A HISTÓRIA não anda para a frente. Aliás, ela não vai para lugar nenhum. Nós é que vamos. Ou não vamos. No final de 1999, o responsável pelas relações do Banco Mundial com a sociedade civil, freqüentador assíduo de nossas atividades, me dizia, num restaurante no aeroporto do Galeão, que Ruth fazia um trabalho extraordinário, mas não seria bem compreendida porque estava dez anos à frente da sua época. O que diria ele agora, quando depois de Ruth fomos parar em algum lugar do passado, 20 anos atrás? A morte não tem sentido. A menos aquele que os vivos lhe emprestamos.É uma característica dessa qualidade da alma que chamamos humanidade buscar na morte um sentido para a vida. Eis a origem do elogio fúnebre. No passamento de Ruth vejo o sentido daquelas coisas que não quero que passem: o apego à força da verdade e a rejeição a qualquer forma de manipulação do outro, sobretudo as formas hierárquicas de poder que exigem obediência.Em quase uma década de convivência, Ruth jamais nos disse, a nós, que trabalhávamos com ela como conselheiros da Comunidade Solidária, o que deveríamos fazer. Nunca tomou uma decisão em assuntos nos quais estivéssemos envolvidos sem antes nos consultar. Recusava o mando, o controle que transforma colaboradores em objetos ou em instrumentos de qualquer propósito pessoal ou coletivo de que não compartilhassem como pares, sempre como iguais.Curiosamente, era fácil irritá-la. Bastava elogiá-la para tentar captar-lhe a confiança com vistas a obter dela algum favor ou benefício. Bastava, aliás, chamá-la de primeira-dama. Se começasse assim, o interlocutor já podia desistir do seu intento. Nossa professora o desqualificaria antes mesmo da prova. Por sua banca pessoal não passavam os interesseiros.Ruth conseguia promover essa unidade, estranha para muitos nos tempos que correm, entre vida pessoal e vida política. Embora nunca tenha misturado a esfera privada com a pública, era sempre a mesma pessoa, estivesse numa recepção palaciana a um chefe de Estado, conversando com agricultores no São Francisco ou almoçando conosco, seus parceiros, em um restaurante em São Paulo.M as tinha opinião, ah!, isso ela tinha. Não acreditava no velho sistema político que agora se derrama em exaltações póstumas. Durante os oito anos da Comunidade Solidária, jamais vi na sua agenda aqueles célebres atendimentos clientelistas a parlamentares, nem mesmo aos do partido do marido. Sei bem, pois minha sala ficava ao lado da sua.Seu comportamento inédito causava irritação, é óbvio, mas a serenidade e a firmeza moral que emanavam de seus gestos e atitudes desestimulavam qualquer protesto. E ela em privado ria à solta quando vinham lhe dizer que um deputado, senador ou dirigente partidário tentou apadrinhar ou aparelhar algumas das ações que promovíamos.Ruth era suave, tinha aquele poder 'doce' que os velhos alquimistas percebiam na natureza, mas era também muito crítica, inclusive em relação ao governo Fernando Henrique, ao qual, aliás, nunca pertenceu formalmente.Quando dizíamos isso, as pessoas não acreditavam: mas como? Ela não é a mulher do presidente? Como se o fato de ser esposa do governante a tornasse também uma funcionária do governo: o que não era, nem nunca auferiu nenhuma remuneração por seu trabalho.Fosse diferente a relação que nossa cultura ocidental estabeleceu com a morte, seria melhor reconhecer que a experiência humana que presenciamos sob o nome de Ruth Corrêa Leite Cardoso foi uma vida realizada e emprestar-lhe um sentido para a caminhada que continuamos do que lamentar o seu desaparecimento.Claro, todos nós sentimos a perda, que, a mim, em particular, me afeta profundamente, depois de dez anos de trabalho conjunto, muitos diálogos e convivência praticamente cotidiana. Dez anos não são dez dias. A gente sofre porque é como se perdesse uma parte do próprio corpo.Mas Ruth cumpriu bem seu tempo nesta terra, com elegância e, mais do que isso, com sublimidade. Sofreu, sim, nos últimos anos, ao assistir ao derruimento sistemático das bases de um novo padrão de relação entre Estado e sociedade que tanto se esforçou por construir. Passou-se a tempo de não sofrer mais. Foi poupada do que ainda virá.Pobres de nós, que teremos de agüentar sozinhos, por muito tempo ainda, todos os efeitos associados à volta regressiva de um passado do qual ela quis se desvencilhar.Até a 'Carta Rede Social 167' e um abraço do


Augusto de Franco


junho de 2008.




UMA PRIMEIRA-DAMA QUE VALEU A PENA
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
25/06/2008

Quando personalidades marcantes, daquelas que se distinguem no cenário nacional partem, para quem sabe outra dimensão, fica uma sensação de perda como se fosse a de um parente, de alguém próximo, apesar de não termos tido contato pessoal com essa figura. Assim, com certeza, se sentiram os brasileiros quando tomaram conhecimento da morte da ex-primeira-dama, dona Ruth Cardoso, ocorrido em 24/06/2008.
Essa comoção não é normal com relação às primeiras-damas. Geralmente elas não se destacam ofuscadas por seus maridos, sobretudo, quando estes são presidentes da República.
Algumas esposas de presidentes exercem ou simulam exercer certas funções de assistência social sem muita relevância. Outras se limitam a freqüentar ocasiões sociais ou acompanhar seus maridos em viagens para compor o quadro que os eleitores admiram: o da família bem constituída. Portanto, primeiras-damas podem ser também peças de marketing, figuras sem vida própria com tendência a resvalar para futilidades que os privilégios do seu status comportam.
Dona Ruth Cardoso fugiu à regra. Extremamente discreta, dotada de elegância sóbria e gestos comedidos, dona de invejável cultura, ela se destacou no cenário nacional pelo trabalho desenvolvido na área social e pela preocupação com os menos favorecidos.
Antes de mais nada ela foi uma mulher como o são as mulheres de fibra, ou seja, foi primeiramente mãe. Assim, enquanto o marido Fernando Henrique Cardoso se dedicava aos estudos e fazia brilhante carreira, inclusive internacional como sociólogo, a antropóloga Ruth cuidou dos filhos do casal, o que fez com que sua trajetória acadêmica ocorresse mais lentamente que a dele.
Mesmo assim conseguiu defender o mestrado em 1970 e o doutorado em 1972. Num país como o nosso, em que se cultiva a mediocridade, a educação caiu ao seu nível mais baixo e não se premia o mérito, infelizmente essa enorme dedicação aos estudos é vista como coisa da elite ou algo desnecessário. Seria, então, preciso mudar nossa mentalidade para se reverenciar os que vencem por mérito.
Dona Ruth foi também professora e pesquisadora e, quando seu marido chegou à presidência da República, assumiu a presidência do Programa Comunidade Solidária. A partir daí foi uma primeira-dama incansável no combate à exclusão social. Menos pelo papel que lhe coube junto a Fernando Henrique e mais por sua consciência cívica, sua visão do país, seu sentimento de brasilidade.
Ruth Cardoso não foi a primeira-dama fútil das festas, o ornamento a desfilar junto ao marido, a deslumbrada exibindo jóias e roupas. Mas exerceu o papel para o qual seu preparo intelectual e seu sentimento de cidadã brasileira se conjugaram para fazer da discreta senhora uma pessoa participante do seu tempo, um ser humano útil a outros seres humanos.
Ainda assim, recentemente foi vítima desse tipo de sordidez que permeia o jogo político. O dossiê urdido nas tramas palacianas para denegrir o ex-presidente FHC através dos gastos pessoais realizados durante seu governo, visaram atingir também dona Ruth. De forma firme, sem se intimidar, ela declarou publicamente que se mostrava indignada com a exploração política que estava sendo feita como os gastos pessoais do seu marido e familiares no período em que ele fora presidente. Realmente, uma abominação visando encobrir abusos de outros, estes sim, absurdos.
Dona Ruth, mãe, professora, primeira-dama atuante se foi para outra dimensão. Fica o Brasil em certo estado de orfandade num momento em que faltam mais mulheres dotadas de espírito público, mulheres solidárias, dignas, capazes de entender que cargo não é privilégio, mas encargo e que o fim último da política, como disse Aristóteles, é o bem comum.
Dona Ruth Cardoso, à sua maneira fez política como se deve fazer. Ela se foi, mas fica seu exemplo. O exemplo raro de como deve ser uma primeira-dama. Dona Ruth valeu a pena.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, professora, escritora.





sexta-feira, 27 de junho de 2008

JOÃO JACINTO


Descobrir


Quero acreditar,
dar continuidade ao sonho,
ser Portugal!
Exprimir a alma
com lusitana voz,
entender-me com o mundo
de coração nas mãos,
ter nos gestos
a coragem
e no intuito
ansiar-se o amor.
E haver um fado
que se cumpra
por suprema
vontade,
magia,
e cante-se
em uníssono,
a fortuna,
em português!

Quero acreditar,
que há, ainda, por descobrir!

(João M. Jacinto)



Este Blog,foi premiado!
Recebeu o prêmio através do poeta João Jacinto!

RACHEL D.MORAES


(Imagem Rachel by Derly Barroso)


A lua de tão clara
Encobria o brilho das estrelas.
No campo de trigo,
As espigas douradas resplandeciam,
Mostrando o ondular do caminho.

A menina descia pela vereda
Das estrelinhas pequenas,
Mirando-se no espelho dos sonhos.

Um fio luminoso ficou estampado
Em sua pupila,
Demarcando a imagem de uma estrela.

Tantos arvoredos, pedras e rios,
Via tudo claramente,
Como se caminhasse num dia submerso de sol.

Vinha deixando um rastro
De lantejoulas em chamas.
Um rastro de chispas cristalizadas de água.
Era como uma pedra preciosa
A andar pelos campos da Terra!
Mirando cada lago,
Contemplando o vasto espelho verde.

Entre um rendilhado de nuvens baixas,
A lua em sua sonhadora obscuridade olhava...
Ela era a estrelinha que caminhava,
Trajando lume e orvalho.
Seus cílios roçavam suas faces rosadas.
Os cabelos dançavam nos ombros
Com doces beijos úmidos.

Passe, passe princesinha de luz!
Olhe os canteiros que Deus plantou para você.

Deixem-na passar!
Diziam as pedras, tombadas no caminho.
Deixem-na passar! Diziam os regatos.
E ela mirava-se neles
Como num espelho.

Todas as árvores curvavam-se a ela
Dando boas vindas.
Ela seguia em frente.
Flutuava de tão contente!
Trazia o coração palpitante,
Por se saber esperada e amada.

E na superfície do mundo,
Deixou-se nascer, luminosa,
Como as Estrelas costumam ser!


Rachel D. Moraes

DORA DIMOLITSAS









A Dama de vermelho

Estava distraída e
Quando virei fiquei ali deslumbrada.
Com a visão da dama

A Dama de vermelho

Cabelos, sapatos bolsa, e unhas.
Seu vestido tinha uma abertura até a altura da coxa
E mostrava um par de belas pernas.

Ela estava ali parada me olhando
Fiquei boquiaberta
Até o seu pingente era vermelho.
O vermelho tremulava em minha frente.

Perguntei então o que representava?
Sem esperar ela respondeu
Represento o coração,
O coração das mulheres do calçadão.



Dora Dimolitsas













As Ruas do Mundo

Andei solitária nas ruas do mundo,
Vi-me refletida no espaço etéreo da luz
Como pássaro sem assas levitei,

Encantada e solitária caminho.
Na visão do infinito
O planeta azul eu abracei...

Sou mulher alada,
Felina, e guerreira...
Solitária caminho

Ao encontro de minha memória astral,
Minha química cósmica,
Reverenciando o altar sagrado da luz

Dora Dimolitsas


Tua essência de luz
Esconde a força
E o movimento
Que vibra em ti

Contidos na
Harmonia.
De tua

Densidade

(Dora Dimolitsas)





Flores Brancas



Caminhava lentamente
Entre flores brancas:
E no caminho
Encontrei a Cigana

Sua roupa ornada de perolas
E fios dourados,
Com um pingente igualmente Dourado.

A brisa deixava seus
Cabelos esvoaçantes,
O perfume no ar
Embriagando o olfato.

A Cigana trazia
Na mão o. Baralho,
Segurou minha mão...
Fazendo uma prece,

Segue em paz, teu caminho já existe
E já está traçado seja feliz.


O sol refletindo,
Os pássaros voando
Tudo parecia mágico
Sorrindo ao sol segui calada

Abracei as flores
Agradecida a Deus
Tudo que a vida me deu

Dora Dimolitsas

MELL GLITTER


TEMPO



Vem tempo!!


Vem suave, vem sem hora....


Deixa eu pisar nesse chão


sem ter pressa de ir embora.




Gosto de olhar na janela


e ver-te nas linhas da vida.


Marca meus passos na estrada,


cicatriza minhas feridas.




É senhor dos meus caminhos.


Conduza-me pelas mãos.


Se escorrego, me ampara,


que dói muito um tropeção.




Se teus ponteiros te apressam,


aquieta-te num canto.


Deixa eu curtir a viagem,


que a vida é feita de encanto.




Se na tua bagagem há pedras,


vamos andar devagar.


Não te quero ver cansado,


nem querer desanimar.




Há trajetos mais bonitos,


onde há flores no caminho.


Se te incomodam as farpas,


a gente tira os espinhos.




No rosto me deixe marcas


que contem a minha história.


Se as lembranças um dia faltar-me,


minhas rugas serão a memória.




Mas, porquanto, aquieta-te,


que tuas horas são ouro.


Que eu não as disperdice,


nem as enterre como tesouro!




E quando chegar ao fim,


destino certo de quem vive,


procure uma outra função,


que de tí, que minh'alma é livre!




(Mell Glitter)

PEQUENAS GRANDES COISAS

Eu quero a felicidade pequena
estampada num breve sorriso.
Quero a alegria da surpresa
numa emoção sem aviso!
Quero o gosto da vida,
da oração ser o amém!
Quero ser o muito pouco,
e o muito prá quem nada tem!
Quero os braços estendido
sem busca do abraço apertado!
Ser a saudades do ontem,
e o sonho realizado!
Eu quero ser a gota de chuva
matando a sede que seca!
Eu quero ser a luz e a esperança
no perdão do homem que peca!
Eu quero ser coisa pequena
prá quem dá valor à vida.
Quero ser lágrimas que molham
a alma arrependida.
Do céu, quero ser estrela,
a mais frágil, a mais pequena.
Quero ser cisco no olho
do envejoso que envenena.
Da frase, ser a vírgula,
do poema, última rima!
Viver das pequenas coisas
que são grandes obras-primas!

(Mell Glitter)

A Vida é Bela de Mell Glitter




A vida me fez cigana
e escreveu na palma de minha mão
que seria eterno o desencontro
da minha trilha ao coração.

Botou-me no mundo perdida,
sem qualquer explicação.
Zombou de minhas feridas
e condenou-me à solidão.

Matou-me de amor muitas vezes
de um jeito que não se faz.
Colocou a desgraça em meu ombro
e o infortúnio de capataz!

E neste destino sem sorte,
fiz de amuleto o coração.
Embora a vida me condenasse
a viver sem ilusão.

Mas um dia, ressentida,
de joelhos fui ao chão.
Pedí ao Dono do Mundo
piedade e salvação.

Das minhas lágrimas sinceras
brotaram flores no chão.
Deu-me, Deus, uma nova vida
e um novo coração.

Assim aprendí que a vida
não é de pedras somente.
Em nós habita um jardim,
só nos basta regar a semente!


Mell Glitter

Marta Peres





Na úmida senzala Pai Joaquim
Padeceu grandes dores, triste e sofrido
Se viu separado da mulher e filhos,
do seu lar foi arrancado
por mercadores, carregado como carga
Em negreiros, trazido para o Brasil.

Pai Joaquim, viveu em fazendas dos Araxás,
debaixo de chibata trabalhava com o gado
Do Senhor,
Sentiu no lombo dor aguda, jamais chorou
E altivo olhava seu dono,
Era rei em sua terra como rei deu-se
O respeito.

Sonhou com a volta à Pátria,
Sonhou encontrar filhos e esposa,
Chorou sozinho, escondido sofreu,
Padeceu!

Era grande, grande,
Mereceu toda grandeza pela sua vida
Sem contudo realizar o sonho.
Sua alma ecoa em brados pelo Brasil!

Três séculos são passados,
Nosso bravo guerreiro permanece,
Sofreu, foi altaneiro na labuta do trabalho
Deixou ensinamentos,
Porém cativo, após a morte deixou de ser!

Marta Peres